Esse é meu último post

janeiro 3rd, 2009 § 1

Sim, esse é o último post, mas não significa que não vou escrever mais. Apenas que os próximos posts serão os penúltimos, antepenúltimos, ante-antepenúltimos… É tudo de trás pra frente, os últimos serão sempre os primeiros. Logo, por ser a primeira vez que escrevo aqui, este será o último, simples assim.

Veja bem, não dá pra chamá-lo de “primeiro”, pois afinal, quem irá lê-lo? Mesmo que esse blog tenha mais adeptos no futuro, os novos leitores nunca se darão ao trabalho de ir nos arquivos mais antigos pra ver esse post aqui. Ou seja, este post é de poucos leitores, daqueles que pessoalmente convidei à leitura e daqueles maníacos que, sem nada pra fazer, lerão os posts de trás pra frente até chegar a esse.

Esse post está sendo publicado num período estranho, estamos no primeiro mês de um ano que é o último da década. E que nome tem essa década? Anos zero? Anos dois mil? Ou mais formalmente: primeira década do século vinte e um? Estaremos próximos do fim dela e nem nos preocupamos com um nome! Normal, foi uma década (seja qual for o nome) agitada.

Você se lembra onde estava em 2000? Eu nem sequer conhecia uma linguagem de programação, o único sistema operacional que eu conhecia era o Windows 95 no meu micro com um Pentium MMX de 200MHz, 32 megabytes de memória e 4 gigabytes de disco rígido. Hoje isso é menos que um celular. Em 2000, os sites da internet eram feios, funcionavam apenas no Interner Explorer 4, e tínhamos duas opções: pagava-se 35 reais (vale uns 64 reais hoje, corrigida a inflação) por um provedor por 20 horas de acesso mensal, mais os pulsos telefônicos. Ou então, ia nos provedores grátis que forneciam acesso livre, porém com qualidade sofrível. Tínhamos duas opções de velocidade: ou seu modem era de 33,6 Kbps (download e upload), ou era de 56Kbps (só download, pois ainda era de 33,6 no upload). Havia ainda uma opção que ninguém comprou: duas linhas telefônicas numa mesma residência para ter velocidade de 112Kbps, só não pegou porque foi suplantado pelo ADSL.

A internet era um saco. Havia o ICQ que, uma aberração de segurança para os padrões de hoje, podia mandar mensagens para qualquer usuário, registrado na sua lista ou não. Mandava-se mensagens “ao vivo”: você digitava os caracteres e instantaneamente aparecia no outro lado. Essa “feature” morreu, pois todo mundo queria ter a oportunidade de se arrepender. Mais tarde o próprio ICQ morreu. Hoje, quem quer se comunicar usa o Orkut ou, fora do Brasil, o Facebook, onde os amigos são estocados que nem comida em tempos de guerra.

Sites era só pra quem tinha dinheiro (ou conhecia quem tinha) e habilidade em computação. Não havia blogs, twitter ou coisa do tipo. Os mortais se comunicavam via e-mail, ou então faziam páginas estáticas no HPG (lembra disso?), onde os seres humanos abusavam das tags <blink> e <marquee>. Felizmente vieram os blogs, onde qualquer um escrevia qualquer coisa, mesmo quem não tinha nada pra dizer. Mais tarde surgiram o Fotolog (outro lugar para gente sem cérebro), daí veio o Orkut (idem). Todos um sucesso, pois eram os únicos lugares onde os brasileiros estavam em maioria. Porém, o povo internauta dessa nação não se fechou e seguiu sucessos internacionais como GMail, que oferecia, em 2004, um gigabyte de espaço, quando os outros se limitavam a 25 megabytes, e também o Youtube, onde tem vídeos que vão do mais genial (poucos) ao mais estúpido (muitos), seguidos de comentários de usuários que sofreram algum tipo de lesão no cérebro, pois sempre é uma variação do tipo “Hahuauauauauaua”.

Havia os pop-ups. Mas depois, veio o Firefox e outros browsers que os desabilitaram. Só o IE não tinha essa opção, pois a Microsoft tinha grandes empresas como clientes, e estes não estavam interessados em perder receita de publicidade.

Os sites, pra funcionarem, precisavam de softwares comerciais: era sistema operacional Solaris ou HP-UX com banco de dados Oracle, ou então alguma coisa da Microsoft. É impressionante hoje pensarmos que a opção é MySQL ou Postgres, seguido opcionalmente de Memcache, rodando em cima de Linux. O Open Source, pelo menos como infra-estrutura, venceu. Lembro de ser um saco instalar o Linux lá em 2003, tinha um medo enorme pois houvia histórias de gente que não conseguia fazer o bicho reconhecer o mouse. Hoje isso é impensável, a última versão do Linux reconhece até modem 3G. O programador de garagem venceu. Um site pode ser aberto com apenas um conhecimento de Python, PHP ou Ruby, usando ferramentas gratuitas e livres na internet, pagando uma quantia módica para a hospedagem.

Foi a década onde a Web 2.0 nasceu, e que, com a crise, está próximo da morte. Pena que o Brasil nunca viu um site de sucesso sobre essa alcunha. Nessa década, também nasceu o Ajax, que fez o Javascript se transformar de vilão para queridinho. Nasceu também o SOA, que não será bem sucedido no Brasil devido à incompetência de muitas empresas de mapearem seus processos, pois todos comprarão soluções prontas de fornecedores, cuja customização estará nas mãos de consultorias e cujo retorno para a empresa será inócuo. Começaremos a ver a computação em nuvem, que só existe de verdade na Amazon e no Google. Até a Info noticiou sua existência, o que significa que não sairá boa coisa no país das bananas.

A primeira forma de comunicação virtual morreu: o e-mail. Se você tiver menos de 30 anos, só o utiliza para receber spam e para servir de identidade em outros sites de relacionamento, que é o lugar onde as pessoas se comunicam de verdade. E-mail é coisa de gerente, que tem o Blackberry onde recebe todas as dúvidas e solicitações inúteis que só existem porque na empresa onde ele trabalha os funcionários não tem autonomia, e a expressão “trabalhador do conhecimento” é algo que só existe na imaginação da equipe de RH. O Blackberry existe para a empresa do início do século XX se parecer do século XXI.

A segunda forma de comunicação virtual morreu: o site pessoal. Hoje, quem quiser, faz um blog.

A terceira forma de comunicação virtual morreu: o blog. Quem quer se comunicar e não tem muita coisa inteligente pra falar, vai direto no twitter ou no Orkut, pois ao menos não demora demais para escrever. Os blogs ficaram limitados aos “esforçados”, com é meu caso.

E já que chegamos ao blog, vamos a ele. Eu o criei para falar sobre programação e coisas relacionadas à minha área. Tenho em mente falar sobre algumas tecnologias e mostrar algumas opiniões. Apesar de conhecer mais Java, não serei paga-pau de nenhuma linguagem ou tendência e sempre terei uma opinião independente e crítica. Espero que gostem daquilo que escreverei daqui em diante.

§ One Response to “Esse é meu último post”

  • Rodrigo Gomes disse:

    Ótimo…
    Como eu tinha comentado antes, estava sentindo falta do antigo blog, desse estilo de escrita técnico-sarcástica, agora posso voltar a ser um leitor assíduo :o )

    Muito sucesso!

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